sexta-feira, 20 de maio de 2016

(RE)CONHECENDO ANGOLA

- Afilhado, se um dia fores à Huila, não te esqueças de chegar às cascatas da Huila. Sou comandante da esquadra comunal. A cascata é, para além do Cristo Rei, Fendas da Tundavala, Serra da Leba e Serra da Xela (Chela), um dos melhores locais para visitar e arregalar os olhos. - Disse-me o padrinho, numa conversa havida há já dois meses.

Chegadas as férias, preparei a "Maria" (nome da carrinha) e fiz-me à estrada: Lwanda-Sumbe-Kanjala-Lopito-Mbengela-Xongoloy-Kilenges-Luvango (Morro da Xela, Cristo Rei, Humpata, Serra da Leba, Tundavala)Xibya, Mercado das Mangueiras (Namibe), Luvango. Confira as estórias

Perto de mil quilómetros da capital de Angola à capital da Huila, a caminho do alto e montanhoso Sul do país. Entre troços recomendáveis e outros que quase nos cortam a respiração, ante a presença brusca de buracos assassinos, desfiz-me de Lwanda-cidade até à ponte erguida sobre o caudaloso e manso Kwanza, a afogar-se no largo Atlântico. É a cobrança de portagem que me desperta a atenção.

- Tomara que de trezentos em trezentos quilómetros houvesse essa forma de levar dinheiro ao cofre do Estado. Andámos a reclamar que as estradas estão más, quando pagamos pouco ou quase nada para as manter. - Atirei ao meu canino amigo e, mais uma vez, companheiro de viagem. Este concordou e a viagem ganhou motivo de conversa: as portagens necessárias e os impostos devidos ao Estado.

- Que tal também uma cobrança de portagem na ponte sobre o Kwanza, junto à localidade de Kabala? É recente, imponente e, tarde ou cedo, carecerá de manutenção. - Atirou Martins, em jeito de provocação, sem se dar conta que os Kz 210.00 pagos na portagem não tinham sido facturados. O Estado fora aldrabado pelo funcionário e nós, distraídos, limitamo-nos a avançar sem cobrar a nota de facturação.

- No regresso, temos de pedir a factura e se o homem for o mesmo, terá de nos passar o documento em falta. É preciso que alguém se lembre disso. A ponte tem de fazer o seu pé-de-meia nesses tempos de verdinhas raras. – Complementei.

Viagem turística é para ver tudo à volta e à beira da estrada. Mas quando a rodovia nos convida para testarmos a potência do motor e a nossa aptidão, somente os sinais de trânsito nos impedem de baixar em demasia o acelerador: visibilidade, condições da via, estado técnico do meio e atenção redobrada são condimentos para uma condução defensiva. Assim aprendi num curso em Catoca.

Não tardou chegar ao Longa, Porto Amboim (onde o sol nos convidava para uma praia que ficou adiada para uma próxima digressão), rio Keve (onde o bagre fumado, à mostra na kitanda ribeirinha, faz verter água na boca faminta de quem deixou Lwanda sem tomar o mata-bicho). Daqui ao Sumbe foram dois assobios.

Calmo, mas sempre perigoso, o monte do Xingo (pescoço? De quem seria?) apresentava-se valentão até para os mais destemidos do volante e acelerador. Mudança intermédia, entre força e velocidade, com o travão sempre a meio. Ao entrar para a antiga cidade de Novo Redondo, a Maria apresentava o depósito a meio e teve de ser alimentada.

Já a sair, surgem casas sobrepostas na montanha que atende pelo nome do Médico-Guerrilheiro do Glorioso M. Uma fenda se presta a engoli-las a qualquer hora desses dias pluviosos. As casas erguidas em degraus sulcados sobre o monte argiloso apresentavam um semblante tristonho e medonho. O motoqueiro abordado não hesita em apresentar-nos o bairro.

- Aqui é no Américo Boa Vida. – Disse empolgado.

Olhei para o Martins que aproveitou a paragem para se aliviar da ureia e joguei rasteiro:

- O camarada Ngola Kimbanda merecia um chará mais organizado. Aqui não vislumbro boa vida. Olha para aquela casa abandonada, com a lateral desabada e sem acesso?

Colhemos as imagens possíveis e cavamos. Uma fomezita se fazia anunciar. Teríamos de resistir até Kanjala onde "as bombas e dinamites que despedaçaram a ponte sobre o rio que  dá nome à localidade não meteram medo ao povo unido" que ali fixou residência e sempre fez o seu negócio agroalimentar. Deslizamos sobre a nova travessia, também ela construída à base de ferro e betão, mostrando aos amigos da pólvora que o país se faz com trabalho.

- Kanjala é fome pequena. - Explicou Miqui, a jovem que disse ter nascido e crescido na aldeia, mas num tempo já de poucas refregas. Sobre os autores da barbárie contra as pessoas, os edifícios e a ponte, Miqui, aparentemente bem avisada e disposta apenas a servir o seu pirão que mata a fome, preferiu não comentar.

- Ó mano, nesses tempos os pais já não andam mais a falar sobre essas coisas. Quando nasci a ponte já estava na água e nunca me disseram quem foi que a partiu. – Esquivou-se ela da provocação, destapando as panelas que reluziam ao sol. Mas é já ao nos despedirmos que Miqui solta um detalhe: estão a ver aquela "kamunda, katito, tito" (montículo pequenino pequenino), é ali que se escondiam.

- Mas, que fome tinham os homens da pólvora que em vez de procurarem por comida a descarregaram sobre a ponte? – Indagou o Martins, cuja resposta ainda aguarda.

O peso do pirão com kalulú, que não tinha peixe seco, fez pressão sobre o pedal acelerador e não tardou chegarmos ao Lopito que me surpreendeu com a estátua que representa um camionista que abraça numa mão o volante e noutra a kalashenikov. O jardim que enfeita a rotunda está minimamente cuidado, tirando os zungueiros e as crianças que jogavam despreocupadas a sua garrafinha por cima da relva. Consultada a placa sobre o monumento, diz tratar-se de uma “homenagem aos motoristas e ajudantes que de 1975 a 2002 ajudaram o povo e o poder instituído a levar mantimentos a todos os cantos do país”. Fiz-me à câmara e, por pouco pediria o livro da cidade para deixar o meu assentimento: "Homenagem merecida". Mas livro não havia nem tempo. Mbengela (Benguela) chamáva-nos apressada pois havia encontro “cirúrgico” combinado com o primo Casemiro, cuja casa devia conhecer. E o encontro foi no Hospital Provincial que registava um dia de pouca agitação.

Sol ardente, sede a cobrar água para os lábios ressequidos. Bem próximo do Hospital, a Morena cobiçava-nos desejosa para farfalharmos as suas areias brancas e águas límpidas. Resistimos: “Ficas na agenda, ó Praia Morena”.

Não vi o vermelho das acácias, se calhar por não estarem na rodovia que me conduziu ao Xongoloy (Chongoroi). Antes, no primeiro desvio para o Wuambu (Huambo), mulheres de pastores de bovídeos exibem o “mahini”. Aqui tratam-no apenas por leite azedo e não exactamente mahini como no sul. Cardealmente, estávamos ainda no oeste e não taxativamente no sul como os nortenhos de pouca instrução catalogam os que nasceram abaixo do Kwanza. Não tardou surgir a vila que nos recebeu debaixo de chuva grossa.

 - Atenção, compadre, à ponte! Tem uma faixa vedada à circulação. Que terá havido? – A pergunta do Martins ficou perdida no roncar da Maria que pelejava contra a distância enquanto eu tinha como adversários os intrusos assassinos e o asfalto molhado.

Com o sol a namorar o mar, um controlo policial desperta a nossa atenção. À meia-distância estava uma ponte metálica prestes a ruir. Um trilho lateral indicava-nos que uma outra fora levada pela fúria da água. Levantando o rosto fui agraciado com a expressão, “Seja benvindo à província da Huila”. Estávamos a adentrar o município de Kilenges (Quilengues), cuja vila se apresenta bem cuidada e asseada. A administração municipal tem no entorno um jardim com representação de espécies da nossa fauna. Antes, um parque infantil atende pelo nome de Jacaré. O templo católico, a caminho do duo centenário, também se mostra alegre e decorado. Fazer fotos se mostrou irresistível.

- Sejam bem-vindos ao nosso município e desfrutem das belezas da Huila. – Gritou-se do outro lado da estrada, ao que fomos agradecer e perguntar se se objectava a colecta de imagens.

- Turismo sem fotos é como casamento sem filhos. – Disse irónico o mano de Kilenges, sempre com um sorriso nos lábios.

Entre Kilenges e Luvangu (Lubango), está Hoke (Hoque), comuna que eterniza um valente comandante das forças armadas angolanas, tombado em missão patriótica. Simione Mukune é o nome do bairro que fica depois do ponteco. O local, contam os moradores, tem dado, em tempo chuvoso, dores de cabeça aos automobilistas e governantes.

- Por cá passam muitas viaturas que vão ao Kunene (Cunene), Namíbia, Moçâmedes e outros destinos, procedentes do norte (Luanda, Benguela, Huambo, etc.). – Contou Zito, um jovem que se apressava em pedir boleia para Luvangu.

Debaixo de um céu já sem sol, ligo o rádio e a música nos convidava: “Vem, vem, vem| Vem conhecer Luvangu| Luvangu te espera”... A cidade era um clarão abraçado pela estátua Real implantada sobre o alto da Cela (Chela).

- Chegamos, compadre. Estás a ver aquele cerco montanhoso? É mesmo ali. Já lá estive por duas vezes em missões de serviço. – Atirei ao Martins que não conseguiu disfarçar a sua alegria.

- Finalmente, Luvango!

O medidor de distância apontava: mais de novecentos quilómetros percorridos entre Luanda e a cidade erguida sobre o sopé do monte da Cela (Chela). 

Antes da hospedagem, entendemos estudar as suas quatro principais saídas rodoviárias. Namibe, Fenda da Tundavala, Kunene e Wambu.

CARTA AO AVÔ KAZENZA

A chegada à casa do nosso anfitrião não foi dificil. A indicação que levávamos era para “ir à polícia e pedir ajuda”. Diligentes e atenciosos, os homens da farda azul  cuidaram de nos acompanhar até à vivenda que ocupa um dos nobres espaços da rua Nossa Senhora do Monte. Antes, pelo caminho, o carro policial pára e recolhe um casal que caminhava sobre a chuva.

- Já não se fazem polícias como esses! – Exclamei.

Vim a saber que aquela rua tinha registado nos últimos dias alguns crimes contra cidadãos que se fizeram a caminho no silêncio da noite. Era por aquela e outras razões que merecia constante patrulhamento e atenção redobrada aos cidadãos.

Cansado, devido a viagem, é debaixo da colcha que redijo a carta para o meu avô Kazenza, cujo neto, destacado na Huila para uma missão de Estado, nos acolhia em sua residência oficial.

Contaram-me. Não te ouvi dize-lo, pois era infante, que apreciavas tanto o teu filho varão que chegaste a descreve-lo como alguém tão culto, tão culto, que "escrevia até debaixo de água". Também me contaram que dizias às pessoas que a tua nora era tão linda e tão cabeluda que "estando na cozinha, a transa se estendia até à sala".
Ouvi ainda que o avô Soares Kazenza, pai de Nzunba, a senhora que me cuidava nas ausências da minha progenitora e me defendia d...as porradas de Kilombo, também era um filósofo e curioso, chegando a desmontar um rádio para ver quem lá estava. Essa estória já a escrevi no meu "O sonho de Kaúia".

Sou o filho daquela tua filha (sobrinha) que por pouco te copiava na imaginaçao e ficção, a Kilombo do Kitinu.
Avô, é verdade que quando já velhinho, regressado ao Kuteka, metias milho na entrada da tua casota para apanhar a primeira galinha que procurasse encher o papo? Ouvi isso.
Disseram que o avô fechava de imediato a porta com a bengala que te ajudava a andar e os aldeões, que muito te amavam e respeitavam, apenas se apercebiam do sumiço do galináceo quando se deparassem com as penas.

Partiste sem que bebesse da tua fonte, avô. Seguiste o Kitinu sem que eu tivesse idade para te ouvir e te retratar suficientemente nas minhas crónicas.
Tenho, porém, uma mensagem para te dar, avó, que será na variante do teu Kimbundu de Kuteka.

Akuku! Omon'a, Nzumba, wakiti. Manu Sabalu-a-Soba, uku amundumisa ku tuma, fuka yenene. Kekayo! (Avô! A tua filha, Nzumba, tem um filho honrado. O mano Sabalo, filho do Soba, foi destacado para liderar numa terra enorme. Repara-a!)

Desperto suado e rápido dou conta de que tinha sonhado.

D0 ALTO DA CELA E TUNDAVALA contemplo a maravilha que a natureza nos oferece complementada pelo engenho humano e vejo quão imensa é a cidade de Luvangu. Não tarda, chega mais uma viatura com dezena de crianças a que se seguem outras de jovens excursionistas. O espaço ganha vida. Corre-se à volta como se procurando por algo.

- Não há cá balneários públicos? – Atira um dos turistas desejoso de desfazer-se de líquidos ou sólidos transformados em pasta.

Abro a minha caixa de recordações e voo até à “Mesa Montanha” da cidade do Cabo e projecto aí um “cable” e todo o apetrecho turístico como loja de conveniências, restaurante, café e um Motel erguidos com material local e sem beliscos ao meio natural. Um pouco desgostoso, já a caminho da Humpata, para ver a Leba, reparo que o restaurante e a loja de conveniências com que sonhei ficaram pelo alicerce.

- “Table Moubtain" nacional, ainda vamos a tempo, se os que têm dinheiro e aqueles que decidem quiserem. ‘ Falei aos botões.

A observação não se distancia da Tundavala que desperdiça a sua enorme paisagem. Só falta mesmo quem decida erguer instalações que alimentem o turismo. Organizar transporte da cidade ao miradouro, cobrar taxa de usufruto, impedir que se suje a área com detritos humanos, latas de cervejas e refrigerantes ou ainda marmitex. Empregar guias que expliquem cada um daqueles recantos ou colocar em cada atalho placas informativas sobre a história do local e sua subdivisão espacial. Recrutar fiscais, fotógrafos e instalar o que atrairia e reteria mais gente ao espaço turístico e recreativo: restaurantes, cafés, lojas de souvenirs, albergaria rústica, toiletes, etc. Com tudo isso, ou mesmo metade, não mais nos espantaríamos com o cable e Table Moutain de Cape Town...

A ESPIRAL DA LEBA: a estrada que desafia a escarpada serra da Leba é uma "serpente" enrolada sobre a montanha vertical. A natureza fez a sua parte e o homem engenhoso complementou com a escada sobre o "edifício" de dezenas de andares. Que maravilha!
Pena é não se ter erguido ainda no local espaços para reter o turista, depois de saciado pela natureza circundante.

Ainda do alto da Leba, depois de pagar a portagem de Kz 150.00, contemplo a sua raridade e me recordo de um velho sonho: descer e subir ao volante de uma viatura.

Ensaio a fiabilidade dos travões e engato uma mudança intermédia, combinando força e velocidade que não passava de 40 Km/h no início da odisseia.

A meio do percurso, um camião tractor geme pesado e cauteloso, pressionado pelo bloco de mármore que há-de trazer divisas ao país e ornamentar um edificio num país qualquer.

- Quão bom seria se tivéssemos já indústria de beneficiação das rochas ornamentais. Deixaríamos de vender comodities baratas e comprar refinados caros! – Atirou o Martins que sabendo onde trabalho aproveitou provocar-me sorrateiramente. Mas é para a descida da Leba que concentro todo o meu talento e destreza.

O MERCADO DAS MANGUEIRAS: É já em território do Namibe que os fóbicos da Leba engolem despreocupados ar puro.

- Ebenezer (até aqui o Senhor nos ajudou)!- Foi a frase que ouvi do meu companheiro de viagem que soltou poucas palavras enquanto eu pelejava contra as curvas e contracurvas numa espécie de espiral regressivo. Nem mesmo os batuques, os recipientes para a ordenha, os cacetetes (porrinhos), estatuetas e outros artefactos de madeira expostos em venda, ao longo da parte final da descendente Leba, despertaram a atenção do Martins que apenas reagiu aos meus beliscos verbais quando deixou de ver curvas à frente. Cinco quilómetros abaixo da Leba, depois de uma vasta mata de mulolas espinhosas, se estende o Mercado das Mangueiras onde matámos a fome e a sede. A carne, assada em tiras finas espectadas em palitos, custava Kz 150.00 ao passo que uma perna de galinha rija custava quatro vezes mais.

- Mas aqui, com tanto gado, a carne é assim tão cara? – Questionei à vendedeira que atendia pelo nome de Fernandinha. Era também o nome gravado à entrada da barraca.

- Senhor, é a crise. Até o preço da taxa subiu!

Fazia sol de assar sardinha e o mar que distava perto de uma centena de quilómetros fazia o convite: “Venham também ver Moçâmedes”.

- Desculpe-me Namibe, mas não será desta vez o nosso reencontro! – Despedi-me, forçado pelo relógio que corria apressado. Havia ainda a cascata da Xibya (Chibia) por explorar e fizemo-nos de regresso ao Luvangu, com curta paragem na Humpata onde o gado bovino, as maçãs, as peras, o tortulho e o bom clima convidam o turista a uma contemplação do belo. Ponto de passagem entre Luvangu e a Leba que nos conduz ao Namibe, Humpata é também um local turístico e de recreação. Tem um mercado municipal recheado de frutas de vontade e pousadas com camas fofas.

Chegados à grande cidade do sul, o caminho seguinte foi o que dá ao Kunene.  Perdidos entre as mulolas e rios caudalosos em tempo de chuvas fartas, mas que se tornam desérticos em horas seguintes, precisei de tradutores para "assuntar" que precisava de fazer fotos com as mulheres mundimbas trajadas a preceito. Estava na Xibya (Chibia), famosa pelos seus campos agrícolas onde se haviam estabelecido colonatos luso. Conta-se que Sá da Bandeira, nome por que fora baptizada a capital huilana, ter-se-á enamorado pelo clima da Xibya... 

Dois tradutores de ocasião ajudam-me a transmitir a ideia, na língua nativa, às mulheres mundimba que ignoram o idioma trazido por Sá da Bendeira e conterrâneos.

- Ele veio nos visitar e quer tirar fotos para recordação. Também promete dar algum dinheiro para os que ficam comprar recordação. - Terá dito, mais ou menos, um dos tradutores, antes de reclamar: - eu que estou a “assuntar” com as mamãs também me põe na conta da recordação. A ele se juntou outro jovem, também pretendendo a boleia da tradução.

As senhoras, caprichosamente trajadas em seus panos e bijuteria de misanga (missanga na grafia convencional) ao pescoço,  acederam sem resistência. Até apareceram mais do que as minhas previsões, mesmo sabendo que a quantia prometida era, para mim, irrisória. Mulher mundimba também gosta de se ver na foto registada e guardada na memória do telefone. E foi o que pediram.

Havia prometido dar cem kwanzas a cada uma das cinco senhoras que contactei inicialmente. No fim, lá estavam onze mulheres. Para manter o que anunciara paguei mil e cem às senhoras, juntando mais duzentos para os dois homens  que ajudaram a manter tangíveis os discursos.

No momento de despedida, soaram rajadas de palmas. Todos agradecidos. Numa picada interior da Xibya (Chibia) onde quase nada se compra, senão as misanga (plural de musanga) e o álcool que "afugenta" o frio que vai e vem sem parar, onde a água pluvial corre furiosa da montanha para lado desconhecido, de tanto não poder adentrar o solo pedregoso, cem Kwanzas terá sido dinheiro.

Não foi dia de turismo. Caminho não havia para chegar à tão recomendada cascata que, afinal, estava antes, na comuna da Huila. Também guias turísticos e bons entendedores da Língua de Camões estavam raros.

Do turismo passamos à aventura. E valeu. É que nem a Maria (viatura) decepcionou na transposição dos obstáculos pedregosos, quanto não lamacentos, que se apresentavam na picada escarpada que risca a nuca da montanha que se estica da Xibya ao Namibe.

Regressados a Luanda, verifico de novo o contador de distâncias e este me informa: consumidos dois mil, trezentos e quarenta e nove quilómetros.

Bem haja turismo!

terça-feira, 10 de maio de 2016

OS MANGONHEIROS DE SERVIÇO

Ouvi, em tempos, alguém a gabar-se do facto de ser um "mafioso" no trabalho.

- "Eu sou um mafioso e ninguém me aguenta". - Gabava-se.
Não que estivesse ligado a uma organização criminosa, uma máfia ou coisa parecida. Reportava-se ao facto de ser um funcionário descomprometido com o trabalho, violador do código de deontologia do Funcionário Público.

Dizia ele que faltava ao serviço sempre que quisesse, que inventava óbitos e doenças para não trabalhar e que conhecia, inclusive, uma rede de falsificadores de documentos que lhe passava as receitas médicas e os boletins de falecimento, com os quais justificava as inúmeras faltas (pois estava mais ausente do que ausente) que lhe eram marcadas. E gabava-se ainda o individuo que "o chefe é meu "panco" (cúmplice), pois fechava os olhos aos seus desacatos e desleixos para com a actividade profissional. Era um homem que conjugava, vezes sem conta, o verbo faltar.

- Eu falto sempre que quiser e ninguém me penaliza. - Gabava-se, ao mesmo tempo que infectava os demais colegas com o seu vírus da indisciplina.

Há ainda os useiros e vezeiros na conjugação da forma negativa do verbo fazer. Não faço. Embora sejam corpos presentes no local de prestação de serviço, esquivam-se sempre das tarefas. Se as fazem não com o esmero necessário e esperado. Estão apenas para assinar o livro de frequências (ponto) e esperar pelo ordenado. Têm sempre um parente ou um amigo enfermo por visitar em hora de trabalho. Nas reuniões nunca contribuem de forma a melhorar as ideias expostas pelos colegas mas estão de boca sempre pronta para lançar críticas ao trabalho realizado pelos outros. Aos seus líderes levam problemas mas nunca apresentam soluções. Estão sempre à mão quando é para transmitir energia negativa. São recolectores de infelicidade que transportam e distribuem pelos colegas. Em conversas sobre a apatia que se instala nas instituições omitem as experiências positivas doutros Departamentos, trazendo apenas os exemplos mal conseguidos, como se o anormal fosse a regra.

- Chefe, não é só aqui, ali também é assim. – Dizem, como se desta forma estivessem a contribuir para transformar a instituição e o país.

Uma minha ex-colega de formação gostava de enfeitar a boca com o termo "eu sou filha de fulano de tal" e por isso ninguém me penaliza. Também não assistia as aulas, mas no final do semestre ou do ano lectivo passava a vida a reclamar dos professores afirmando que os mestres tinham sido maus para com ela. Calculo que no trabalho ela continue a conjugar o verbo ser (fidalgo) e a reclamar dos responsáveis sempre que a avaliação do seu desempenho corresponda àquilo que não faz durante o ano. A minha ex-colega, fruto do facto de ser fidalga, também gostava de conjugar o verbo ter. – Eu tenho influências e, por isso, ainda que não estude, ninguém me pode reprovar. – Afirm,ava de boca cheia.

Hoje, estará igualmente a dizer que tem influências e, ainda que falte ou que não trabalhe, ninguém a pode penalizar ou responsabilizar pelo incumprimento dos seus deveres.

Certa vez, quando estávamos a estagiar numa empresa, veio à baila uma conversa sobre o comportamento no local de trabalho, com realce para o cumprimento dos deveres e a reclamação ou usufruto dos direitos.

A minha colega, cujo nome omito, dizia, de boca cheia, que procurava mais por um salário do que por um emprego. Um dos colegas que não deixava conversas azedas para o dia seguinte enfrentou-a nos seguintes termos:

- Jaja, perdeste o teu tempo na formação para ser uma lesma no serviço? Se for para fingires que trabalhas ou apenas para mostrares aos vizinhos que tens um emprego, monta uma barraca em frente à porta de casa e faz negócios. Sendo tu mesma a patroa, apenas as tuas necessidades financeiras te obrigarão ou não a te desempenhares com maior acuidade. Como te podes orgulhar em ficar oito horas no trabalho em vez de trabalhares oito horas? – Questionou o Dito, conhecido como "O Bombeiro Diligente" por seu pau pra toda obra, sempre motivado e sorridente, fazendo as coisas com perfeccionismo, precisao e celeridade.

Ainda bem que  o meu leitor se escusa em ser pregador de maus exemplos, pois sabe que em todas as situações, domésticas ou laborais, há sempre quem tenha menos do que nós e que vive feliz, apesar das dificuldades. O meu leitor, tenho certeza, é dos que espalham sorrisos por onde passa, planta alegria e colhe bons resultados profissionais.

Na sua instituição, é dos primeiros a entrar e dos últimos a sair, depois de um dia sempre produtivo e inovador, valendo-lhe, por isso, uma boa carreira e reputação. O meu leitor é daqueles que conjuga o verbo agir, servindo-se do equilíbrio nas suas posições, respeitando as pessoas e as normas instituídas. É dos que se colocou, à partida, uma pergunta a si mesmo e cuja resposta é fornecida pelas suas acções diárias:

- Como quero ser lembrado(a), no futuro, pelas pessoas com quem lido ou que passarem por cá e ouvirem falar sobre mim?

A resposta define a estrada que vai construindo no seu dia-a-dia.

Nota: text5o publicado no Semanário Angolense de 01.08.2015

 

domingo, 1 de maio de 2016

TOPÓNIMOS BANTU: CÊS OU KAPAS?


Mas, ó kota, assim mesmo está bem? – Bernardo Njamba, meu companheiro de viagem do Cuito a Menongue é moto-taxista, vulgo Kupapata e trabalha na capital do Cuando-Cubango. Apesar de a profissão que exerce não ser das que exigem grandes níveis de escolaridade, Bernardo é bem informado e diz que “ganha-se mais trabalhando em Menongue do que no Chitembo ou Cachingues, sua terra natal, no Bié”.

Sem mesmo saber, antes, quais as minhas habilitações, ramo de formação e interesse pela questão linguística e grafia dos topónimos angolanos, Bernardo, como quem lê o pensamento alheio, atirou a sua pergunta (mas, ó kota, assim mesmo está bem?) ao passarmos pela renascente vila de Cachingues, cujo tabuleiro, no seu entender, devia estar escrito como se pronuncia em umbundu.

Antes mesmo que obtivesse de mim algum pronunciamento, Bernardo endireitou o tiro e falou sobre si.

- Nasci, ali mesmo naquela aldeia, onde o mano parou para me levar. Estudei a oitava classe no Chitembo e “através” da guerra fui rusgado duas vezes. Primeiro me levaram na tropa do governo e combatemos nos lados de Camacupa. Quando vi que as mortes eram demais, fugi. Mas por azar, também fui raptado pelas forças da Unita. Ali já era demais. Recuar era só recuar. Todos os dias era só fugir da tropa do governo que estava bem equipada. Txá, aquilo era demais! Nem mesmo comida ou fardamento tínhamos. Ração era milho torrado e roupa que te apanham com ela é a mesma que serve de farda até rasgar.- Contou, para depois perguntar se “o kota é daonde e combateu ainda aonde?”

- Sou do Libolo. Na tropa, apenas espreitei e fugi antes de jurar a bandeira, pois era recruta menor e ninguém me perseguiu quando entendi fugir dela. Depois fui a Luanda estudar e trabalhar. – Expliquei-lhe.

- Siti, kota watanga (o mais velho estudou mesmo). – Exprimiu-se em umbundu, Bernardo. – Mas, o kota estudou o quê? – Voltou a questionar, tentando procurar um caminho para chegar ao assunto da grafia no tabuleiro deixado na comuna de Cachingues.

Ele como um cavalheiro que aos poucos, sem fazer-se perceber, esquarteja a sua dama, e eu na defensiva. O assunto era do meu interesse mas pretendia saber até aonde Bernado Njamba chegaria com aquela pergunta inicial. A nossa viagem consistia numa troca de favores: eu levá-lo-ia até ao seu destino, Menongue, e ele mostrar-me-ia, em troca, a cidade a que me dirigia pela primeira vez, e o Instituto Médio de Administração e Gestão, IMAG- 23.

- Sou jornalista. Meu nome é Soberano. Nas universidades estudei História e Comunicação Social. Também gosto de estrada e aprecio as coisas velhas e novas que vão surgindo pelo país. – Disse-lhe, aguçando o seu desejo de prosear.

Bernardo sorriu de leve. Pegou em duas latas de bebida energética que tinha no saco, ainda frias, e passou-me uma das latinhas.

- Kota Soberano, posso trata-lo assim? Questionou, já com um à vontade nunca esboçado.

Apenas anui com a cabeça, procurando por uma música que nos fizesse companhia. E ele prosseguiu:

- O kota que entende de História deve também entender lá um kabocado de línguas nossas. Acha mesmo que a forma como escreveram os nomes das aldeias, comunas e municípios, até mesmo os nomes das cidades está correcto? É que nós, kupapateiros quando falamos, mesmo tendo razão, nos falam você é burro.- Desabafou, algo aborrecido.

Meu amigo, sou um dos que se debatem contra a forma como os topónimos estão escritos nos tabuleiros ou a forma como nos habituamos a escrevê-los. O ideal seria que os topónimos e antropónimos fossem escritos e registados de acordo com a estrutura gramatical da língua em que são enunciados. Aqui, entre nós angolanos, o assunto da troca dos kapas pelos cês na grafia de alguns topónimos bantu ou pre-bantu e a manutenção dos kapas noutros vocábulos tem sido motivo de muita celeuma. Veja bem, amigo Bernardo, abri o rosário, há meses, quando se fez o registo eleitoral o MAT mandou os jornalistas escreverem os nomes como se escrevia no tempo do kaputu. Então, uns ficaram “fulu”. Disserasm assim é regresso ao passado e não pode ser. – Recordei-o.

- Pois é mano. :Respondeu Bernardo. – Veja, por exemplo que o rio, esse que nasce mesmo aqui perto, no Chitembo, é Cuanza mas a moeda que ganhou o nome “através” do rio, é Kwanza com kapa e se justifica que se atribuiu à moeda angolana o nome do maior rio que nasce e desagua em território nacional. Isso assim mesmo está correcto?


- Não acho correcto. Fui e sou ainda dos que mais discorreram tinta sobre o assunto que, afinal de contas, não é tão complexo nem confuso quanto os comunicadores do MAT o fizeram parecer. Aqueles "doutores" em vez de saírem de peito aberto para explicar em miúdos o que se passou com a remissão daquele instrutivo aos Meios de Difusão Massiva para, de um dia para outro, cortarem os kapas e os substituírem pelos cês, deviam é estudar o assunto e explica-lo não só aos MDM mas a todos os angolanos. Ontem mesmo, um meu amigo, já mais velho e doutor de verdade, explicou-me me que os nomes, mesmo os das pessoas, só se tornam oficiais quando cadastrados num livro de registo que lhes dá respaldo legal.

- Ai é? – Interrompeu Bernardo que parecia gostar das explicações e de ter encontrado a pessoa certa para o seu desabafo.

- Sim amigo Njamba. Vejamos: o único registo existente quanto aos antropónimos angolanos é o que foi deixado pelo colono. Não foi produzida uma lei que alterasse os nomes das localidades, de acordo ao que alguns angolanos defendem, eu incluído, que é redigir com kapa aí onde a estrutura da língua africana originária o exija.

- Mas o mano Soberano me disse, na passagem pretérita, que era contra a forma como se escrevia antigamente e como se escreve também agora. Assim então fica como?

- Pois é, Bernardo, aí está o problema. Temos as localidades já antigas que foram mal registadas pelo colono. Umas mudaram de nome depois da independência, mas ninguém fez o registo em livros. Os nomes não foram oficializados nem escritos correctamente. Temos também as novas localidades surgidas depois da independência, como a cidade de Kilamba ou a moeda Kwanza. Essas estão bem escritas e fora de discussão. – Esclareci.

Bernardo Njamba parecia ter ainda algumas dúvidas embora tenha por diversas vezes balançado a cabeça, em sinal de aprovação do discurso. E não tardou a sua pergunta derradeira.

- Assim, mano Soberano, os nomes então devem se escrever como? Cachingues, Mumbue, Chitembo, Catabola, Chicala-Choloanga, Babaera, Bié, Cuito e Cachungo é mesmo assim que se escrevem ou devem levar kapa no princípio?

- Olha, Bernardo, Mumbué, Babaera e Bié não levam kapas, mas devem ser escritos de forma diferente. Devem passar para Mumbwe, Vava-Ayela e Vye. É assim que se escreve em umbundu. De igual forma, para corrigir os topónimos que enumeraste, deve escrever-se Kacingi, Citembu, Katabola, Cikala-Colohanga, Kwitu, Kacungu, etc. É preciso que se escreva bem e se crie uma nova lei do registo desses nomes bem escritos.

  
- Então é isso que o amigo do Kota explicou na conversa que tiveram ontem? - Voltou a questionar Bernardo, sempre interessado nas explicações, se calhar para lhe servirem de argumentos perante os debates com os colegas, na praça da Paz, em Menongue, onde presta serviço de moto-taxi.

- É mais ou menos isso. Ele pediu para que todos aqueles que podem esclarecer aos outros aprendam e façam-no para que o povo reclame com razão. Perante a douta explicação do meu amigo, devemos é redireccionar a NOSSA "luta" ao mesmo MAT, já não para repor os kapas que achávamos terem sido arbitrariamente cortados, mas para que no mais curto espaço de tempo crie a lei que coloque, em definitivo e de jure, os kapas, ipsilons e dablius nos topónimos como Kwanza, Kacinge, Mwmbwe, Cikala-Colohanga, Kalulu, Kwitu, Katabola, Vav'ayela, etc. e se escreva correctamente os nomes dos rios, das localidades e até das pessoas. O que peço hoje, espero que você também seja parte desse esforço, não é a colocação arbitrária de kapas, mas a grafia correcta dos hidropónimos, topónimos e antropónimos conforme a estrutura morfológica das línguas locais.


- Ok, mano. Estou de acordo. Assim mesmo, quando chegar a Praça da Paz, vou já começar a explicar aos meus colegas. Não pedi antes, mas gravei as explicações do mano, para servir de testemunha. – Concluiu Bernardo que ao longo do percurso foi fazendo as correcções sobre como seria a grafia correcta, seguida de registo, das localidades que fomos encontrando.

- Kota, a província do Kwandu-Kuvangu começa aqui e a cidade de Mwene Vunonge fica a cento e cinquenta quilómetros. – Atirou, mostrando que domina já o assunto.

quarta-feira, 20 de abril de 2016

CAMINHOS EVITÁVEIS

Na áurea das independências, e influenciados pelos ventos revolucionários e ideologia dos países do Leste europeu, dois Estados da conhecida Região do Corno de África decidiram fundir as suas fronteiras num acto que visava aproximar os dois povos que comungavam de culturas e valore muito parecidos.
Essa visão política estendeu-se ao fórum empresarial e económico. Algumas firmas do pais Ericeira estabeleceram parcerias, face a existência de novas oportunidades de mercado e possibilidades de expansão de negócios.
Tonka Incorporated, uma firma que dominava o segmento da prestação de serviços de higiene e segurança em instituições públicas, bem como a gestão e aplicação de políticas de Recursos Humanos, tinha uma considerável quota de mercado em Ericeira e um excesso de liquidez que permitia a empresa explorar a oportunidade criada pela conjuntura exógena, a fusão dos territórios entre Ericeira e Entropia.
Em viagem de serviço a capital de Entropia, que se tornou a segunda cidade mais importante do Estado Unificado, Sir Kato Ndombele, o patrão da firma KatOn Service Incorporated, conheceu Hamed Tonka, o Presidente do Conselho de Administração da firma Tonka Incorporated, e com ele decidiu estabelecer uma parceria, criando uma fusão entre as duas empresas, tempos depois, antecedida de aturadas negociações.
A KatOn era uma empresa com reputação ao nível do continente africano e de alguns países do sul da Europa em termos de gestão de Capital Humano e prestação de serviços. Porém, as transformações políticas no país e as nacionalizações ocorridas em Ericeira não facilitaram uma expansão dos seus negócios, muito menos criar uma almofada financeira que permitisse atacar o novo mercado que surgiu com a fusão dos dois Estados vizinhos. Os quadros da KatOn tinham porém a fama de terem trabalhado em grandes multinacionais, gozando, por isso, de grande reputação junto de outros parceiros empresariais e organizações governamentais.
A Tonka, empresa da Entropia, viu nela uma parceira capaz de agregar valor aos seus recursos financeiros excedentários.
Fundidas as empresas Tonka e KatOn, a nova entidade jurídica passou a designar-se Toka International, sendo grande parte da sua gerência confiada aos executivos procedentes da KatOn, que era minúscula em termos de estrutura, mas robusta em termos de know how e qualidade do seu Capital Humano. A sede da nova entidade empresarial, a operar no território unificado, passou a ser a antiga Base Central da então Tonka Incorporated, o que levou os funcionários mais antigos da Tonka a tratarem os seus novos colegas com os mais variados epítetos depreciativos. Eram tratados como "estrangeiros, invasores, usurpadores de cargos, etc.",  situações que a juventude bem disposta, comprometida e motivada, procedente da KatOn, geria com inteligência e postura institucional.
- O nosso lema é trabalhar, fazer a nova empresa crescer e crescer com ela. - Diziam os jovens executivos saídos da KatOn.
De simples alegações ciumentas, passou-se a confrontos verbais mais acirrados que chegavam, em muito dos casos, a inviabilizar alguns planos de crescimento da Toka International.
Como as lideranças estavam mais focadas na consolidação da fusão e desenvolvimento da nova estratégia de negócios propiciada pelas razões endógenas (excesso de liquidez e domínio de consideravel quota de mercado por parte de Tonka e elevada preparação técnica dos quadros da KatOn) e pelas razões exógenas (fusão dos dois países, crescimento económico e restruturação das instituições públicas), preferiram tocar o negócio para a frente, buscando apenas a participação daqueles que estavam interessados em trabalhar, fossem quais fossem as suas funções hierárquicas nas equipas. As lideranças intermédias rapidamente interpretaram o pensamento estratégico e começaram a trabalhar com os quadros disponíveis, ficando sem trabalho aqueles que, a todo o custo, puxavam a carroça para trás ou usavam a táctica do caranguejo (não permitir que alguém trabalhe ou colabore). O curso dos acontecimentos levou a que os quadros da Tonka que aderiram à nova filosofia de trabalho aprendessem com os outros provenientes da KatOn e se especializassem em distintos ramos do saber. Às cegas ficaram aqueles que desistiram de trabalhar, procurando apenas conspirar contra as novas lideranças da Empresa Unificada e os colegas que tinham aderido à nova filosofia de trabalho.
Vinte anos depois, o Leste europeu conheceu outros desenvolvimentos políticos, com maior realce para a queda do Muro de Berlim, que levaram à desintegração de Estados em alguns continentes desanexações de territórios, efeitos que se estenderam a países que orbitavam na esfera ideológica do Leste europeu. Isso fez com que a integridade do Estado Unificado de Ericeira-Entropia fosse afectada, repercutindo-se também em alguns negócios empresariais, sobretudo os actores que trabalhavam com instituições públicas.
Da Toka International ressurgiram duas novas entidades empresariais que passaram a actuar com a mesma tecnologia e conhecimento nos países (re)emancipados.
- Chegou a nossa hora de governar o país e a empresa, terminada que está a ocupação ilegal dos nossos postos de trabalho e de chefia. - Proclamou a velha guarda resistente da antiga Tonka de Ericeira.
Os jovens competentes, formados no tempo da fusão, foram relegados para planos secundários na organização, sendo catalogados como "produto da colonização empresarial", ocupando a velha guarda os postos de decisão na empresa.
Aqueles que, sendo da mesma geração que a velha guarda tonkanense, tinham aderido às novas formas de trabalho, no tempo da gigante Kato International do Estado Unificado, também foram ostracizados sob a alegação de "se terem juntado ao colonizador".
- Quem se juntou ao opressor que invadiu a nossa empresa e tomou os nossos lugares, agora que nos livramos deles, deve partir ou sujeitar-se à nova ordem. – Apregoavam eufóricos.
O poder de transformar a empresa e seguir o seu percurso de crescimento e expansão tinha-lhes sido entregue. Porém, os vinte anos de defeso, sem trabalho e contacto com as novas ideias e novas tecnologias, fez deles maus líderes e maus obreiros. De uma imponente empresa que foi antes e depois da fusão, a Tonka não passa hoje de um impotente manto de retalhos, com tecnologia e capital humano a reclamarem por uma reforma profunda.
Do outro lado, em Entropia, segue de vento em popa a KatOn International que absorveu da sua antiga parceira o conhecimento de mercado, capitalizou os investimentos herdados com a fusão e conta com os seus quadros cada vez mais qualificados.
Quando se realizam fusões de organizações empresariais, independentemente da procedência, quantidade de quadros indicados para a gestão e do peso que tenham ou venham a ter na organização, é importante que cada uma das partes fundidas ou componentes das partes deem o seu máximo para a consolidação da nova entidade. Todos os integrantes devem absorver as vantagens da fusão e da interação com os outros actores (que se juntam à nova organização).
Ficar na sombra, a reclamar o declínio dos gestores no activo, pode ser perigoso para quem arme este estratagema como forma de reivindicar o poder, pois, uma vez no exercício do poder reclamado, pode ver-se despido de ferramentas para a exercitação das funções que lhe foram confiadas. Ficar na sombra, a torcer pelo descarrilamento do comboio, para depois tomar o lugar do maquinista azarento, poder ser uma estratégia perigosa como se verificou entre os integrantes da firma Tonka de Ericeira que deitaram a baixo até o que de mais valioso tinham conseguido com muito labor: o supervait e considerável quota de mercado ericeiriense no domínio da prestação de serviços de higiene e segurança em instituições públicas, bem como a gestão e e aplicação de políticas de Recursos Humanos.
Nota: a presente reflexão é produto de criatividade aliada ao estudo de casos científicos no curso de MBA realizado na FAAG, não se dirigindo a pessoas e ou instituições concretas de nenhum Estado ou território.

NB: Texto publicado pelo Semanário Angolense a 06.11.2015

sábado, 9 de abril de 2016

OS TRÊS RELÓGIOS

Discutiam três colegas de serviço sobre quem delas era mais útil à organização em que laboravam.

Suraya, esbelta de parar o transito, gabava-se de ser a mais elogiada e que tudo fazia para impressionar os colegas e a chefia todos os dias. Atendendo que os chefes tinham decidido ser madrugadores, ela, catadora de elogios, começou também a chegar cedo ao serviço, gingando de um lado para sitio incerto. Porém, mal começassem a chegar os colegas sem olhos para a sua montra, ela se retirava para o andar em que se situava o secretariado onde se ocupava mais em buscar actualidade do mundo da moda, através das redes sociais, do que do seu trabalho que até estava clarificado no descritivo de funções. E gabava-se de sol a sol que era pontual.

- Nessa organização não há quem chegue mais cedo do que eu, por isso mereço promoção e uma gala para me homenagearem. - Atirou, certa vez numa actividade social da organização.

- Você, Suraya? Nunca. Nem pensar. Nem que a vaca fale. Chegas cedo mas não és assidua. És uma pisca-pisca (dia sim, dia não vens) e quando se olham para os teus resultados parece que só são borboletas que caiem no teu cesto. - Zombou Tina, outra colega que tinha a má fama de trabalhar apenas quando a lua estivesse no centro da circunferência celeste.

A discussão, aparentemente sem nexo, ganharia força quando chegou Rita. Rita era uma senhora "Baby boom" que fora já reformada e recontratada devido ao seu apego ao trabalho e seu perfeccionismo naquilo que fazia. Não precisou de fazer parte daquela histérica algazarra, pois era exemplo de dedicação, bom desempenho e comprometimento. Vestia a camisola, via-se. Entretanto, não era tão pontual, nem muito assídua devido aos compromissos familiares. Era do conhecimento da chefia que dela cobrava resultados e não presença física obrigatória. Dona Rita, ou mesmo vovô para os mais brincalhões, tinha entretanto uma agenda de encontros presenciais bem arrumada e não se atrasava às suas reuniões. Das suas poupanças tinha conseguido instalar telefone fixo e internet em casa, um computador, impressora e um scanner que lhe permitiam trabalhar "at home" e apresentar resultados surpreendentes.

Quando a senhora se fez presente naquela sala em que se comemorava o aniversario da organização, dois grupos miravam para ela toda a atenção: uns, sobretudo aqueles que enxergavam qualidades e que com ela procuravam aprender, seguindo os seus bons exemplos, a aplaudiam e apontavam como a mais provável homenageada da noite. Era já habito do titular de direcção daquela organização homenagear o trabalhador mais produtivo do ano. Outro grupo, composto maioritariamente pelas gerações Y e Z cochichavam que a "velha" já estava fora de tempo e que naquele ano não levaria sequer um elogio do chefe. Apostavam mesmo que a "senhora dos mil prémios" como também era conhecida sairia dai banhada de lágrimas porque o tempo dela já tinha passado.

- Essa tia que chega quando quer, até o chefe já sabe que ela é uma cansada e chata, o que que veio fazer? Acha que leva daqui alguma coisa? Atirou Gina, uma jovem que ainda nem era do quadro permanente de funcionários.

Quando o titular chegou, mal se dirigiu ao presidiu para cortar o bolo, chamou dois nomes: Dona Rosa, a mais idosa da organização, e Dra. Suraya, uma das mais novas e mais extravagantes, para junto dele.

A Suraya já tinha distribuído beijinhos e abraços a todos os colegas, contando que seria a estrela iluminante da noite.

- Chamei as duas funcionárias que refletem dois exemplos de na nossa organização. - Disse o titular, prosseguindo. - A dona Rita é quase invisível. Chega numa altura em que todos já estão nos seus gabinetes e muitas vezes sai quando todos estão já nos seus aposentos. Até seus encontros com clientes e fornecedores acontecem sempre depois das 8h30. Faz tudo ao detalhe e não deixa nada para o dia seguinte. A Dra. Suraya, continuou, é das que mais cedo chega, das mais vista pelos gabinetes e corredores. Porém, a medição que temos vindo a fazer é por resultados. A Dra. Suraya produziu durante o ano findo que hoje comemoramos, dois terços do que ganha e a Dona Rosa foi, directa e indirectamente, responsável, por um terço do resultado da nossa organização. Peço uma salva de palmas à nossa estrela da noite que ganha uma bolsa familiar para licenciatura. – Concluiu o boss.

Pasmos, os mais jovens não perceberam por que razão a sexagenária iria estudar quando eles que se gabavam ter "toda a vida e todo o sangue para derramarem em prol da organização" ficariam em terra. Jaja, outra das colegas, e Suraya chegaram mesmo a questionar os critérios usados pela administração para encontrar o vencedor do prémio de e por que razão iria Vovô Rita à formação, estando já sem força. Suraya alcandorou-se do facto de ser regular e por isso merecedora da distinção. Outra, a Jaja, apregoou a sua pontualidade. Mas o presidente, astuto, contou-lhes a estória sobre os três relógios: um é de prata, toca o despertador à hora certa mas não tem o ponteiro dos minutos. Outro é banhado em ouro e não funciona. O terceiro é de plástico metalizado e tem os ponteiros completos, marcando correctamente as horas e o despertador.

- Qual dos três me faz falta? Questionou o titular.

A geração Z optou pelo de ouro, alegando ser um adereço moderno e vistoso. A geração Y optou pelo de prata pois, dizia, embora mais modesto do que o primeiro, tinha algo funcional, o despertador, que permitia o titular não se atrasar nos seus encontros. As gerações M e X optaram pelo relógio de plástico banhado em metal por ser o que funcionava em pleno.

- Pois é, todos parecem ter razão, mas o relógio que me apresenta resultados é aquele que funciona. Assim também são os funcionários, prosseguiu. Não basta chegar cedo, quando se vem, ou vir todos os dias em horários distintos. Pontualidade e assiduidade devem ser regulares, estando acima de tudo a produção. As organizações são talhadas para os resultados e não apenas para as presenças físicas dos funcionários. -Deixou explícito o titular.

Todos compreenderam a mensagem e ouviu-se uma estrondosa salva de palmas em homenagem à sexagenária Rita.

Texto Publicado pelo Semanário Angolense a 21 de Julho de 2015

sexta-feira, 1 de abril de 2016

CANÇÕES DE ESTRADA


No mercado espontâneo surgido à beira da estrada, no local em que os carros que se fazem às províncias, atestam os depósitos de combustível e o estomago, o pregão dele é único. Samy corre de carro em carro com um leitor de CD e uma caixa repleta de discos pirateados na mão.

- É cê-dê origon, kota. Música de qualidade que não te deixa mal durante toda a viagem. Quem "me" compra "vorta" sempre a me procurar na próxima viagem. – Apregoa Samy.

Cabelo comprido a fazer sair uma crista que lhe percorre o ngwimbu à testa, Samy vive desse negócio há já cinco anos e com os frutos sustenta a mulher e três filhos.

- Kota - voltou a chamar-me – já ouviste esse disco (apontava para um que tinha a inscrição "rir até mostrar o último molar"?!

- Não, puto. Ainda não tenho. Mas de quem é o disco?

- É teu, kota. Passa só duzentos paus. Com cento e noventa também bate. - Regateou.

Meti a mão na algibeira e de lá saquei os Kwanzas necessários. Porém, a contra gosto, tratando-se de produto aparentemente contra feito embora o disco estivesse forrado em plástico.

- Kota, experimenta a faixa quatro. - Ordenou Samy, sorridente, enquanto ajeitava o kitadi na carteira. Liguei o rádio e fui, aos pulos, conferindo as músicas inscritas na capa, para depois as ouvir na íntegra ao longo do percurso que me leva de Luanda a Menongue.

"Se vais na província tenha cuidado. Na via do Dondo tem lá buraco. Buraco bué", soltou o rádio.

- Epá, grand´a queta. Está mesmo a condizer com o estado "caprichado" da via. Será que o cantor tem circulado por aqui todos os dias? - Interrogou um dos meus dois passageiros, sem que obtivesse de minha parte uma pronta resposta.

Eu saboreava a alegria de ter acertado na escolha do disco e o ocupante do banco de trás conferia as últimas novidades do facebook. Apenas o mais velho colocava perguntas ao longo do percurso, ou para explicar algo que tenha vivenciado no seu tempo de juventude ou perguntando sobre coisas novas com que se vai deparando pela primeira vez.

E a letra da música, que parecia ter sido feita à medida, prosseguia nos apelos à prudência: via do Dondo tem la buraco; na do Libolo tem lá buraco; da kibala bue de buraco; no Bailundo vão já cavar; toda angola está um buraco; mas a taxa já está no pontoé! – Terminava de forma satírica a canção.

Até concluir os primeiros 750quilómetros que separam Luanda das terras planálticas do “olongombe Vye”, não se ouviu outra balada que não fosse essa, do grupo humorístico "Estamos a vir" que é um retrato fiel de muitos troços das nossas estradas aí aonde a incúria de "quem de direito" ainda se faz sentir.


Do Kuito a Menongue, viajo sozinho sobre as estradas largas, rectilíneas e bem conservadas do centro e sudeste de Angola, acomodado ao volante da minha Maria Canhanga (viatura em que me faço circular). Ela comporta-se como mãe que nunca deseja que o mal se acapare do filho. Aliás, vou acompanhado do Justino Handanga instalado no leitor do meu rádio, cantando os benefícios da paz. E diz, o bom do Handanga, no seu sempre bem pronunciado umbundu "a Suku lombembwa, ndapandula avoyo!
Ndakulihile ño o misäwu yo Ndondi. Vavayela vo Mbongo. Elende vo Cipeyo. Ndamosiwila vemi lyomunda vo Hanga" (Agradeço, Senhor, pela paz que me permitiu conhecer a missão de Dondi, Vavayela/Babaera no Mbongo, Elende no Cipeyo e a montanha do Hanga…).
Embora o administrador “Andonho Kotingo tenha chorado ao ver a missão destruída e os eucaliptos secos", canta ainda Handanga,  a paz permite ter esperança de que o quadro seja revertido. E observei que aquilo que se passa no oeste (reconstrução e construção) está também a acontecer no centro de Angola onde Cachingues é u exemplo do que é começar do zero uma vila completamente arrasada pelas inúmeras refregas militares.

Em relação à agricultura, fiquei sem saber se as casas tinham sido implantadas no meio de milheiro ou este fora semeado nos espaços entre casas.

Chegado ao sudeste, o mesmo cenário inovador. Também verifiquei que ou o velo, destruído pela guerra havia sido reabilitado ou entre os escombros e próximo deles nasceram novos edifícios que conferem alegria às circunscrições. Notei que as margens das estradas estavam literalmente agricultadas de mandioca, milho, massango e massambala. Sendo milhares de hectares lavrados, desafiando a tenacidade da floresta húmida e densa.

E fiquei a pensar nos machados, buldozers e outros meios empregues para derrubar tanta árvore e fazer do bosque campos produtores de alimentos. Bons exemplos desses povos, ovimbundu e ovingangela.
Com tanta floresta, fiquei também a pensar por que razão a guerra terá sido muito renhida no Sudeste angolano, não tardando a resposta que veio logo a seguir.

- Muita mata. Muito esconderijo, até da aviação. E como se não bastasse, muita comida produzida pelos coitados dos populares que eram assaltados dias sim, semanas também pelos insurrectos sem logística militar.
Ainda bem que os tempos são outros. As florestas que serviam para o esconderijo de malfeitores dão hoje sustento a gente que trabalha, proporcionando madeira, carne de caça e mel.

Estou no sudeste, em Menongue (ex-Serpa Pinto), Cuando-Cubango, faltando-me apenas conhecer a antiga Carmona. Já vi o rio Cuebe que trespassa a cidade construída sobre as terras do Mwene Vunonge e recebi o forte abraço do simpático Carlos Bequengue da Rádio KK.
De Luanda-Dondo- Huambo-Cuito e Cuito-Menongue, a EN 140, último trajecto, me pareceu ser das melhores estradas que há em termos de transitabilidade. Tive o mesmo gozo nos trajectos Alto Hama-Huambo ou ainda Alto Hama-Cachungo-Cuito. Fiz gosto ao pé e testei a Maria (nome da Hilux vermelha que me carrega) que correspondeu em velocidade, consumo e estabilidade, fazendo-me esquecer o António (Tucson marron) que é automático.

Tri-ti-ti (alusão à guerra, música cantada por Viñi Viñi), nunca mais, nem haverá mais gente a “partir londango por causa do lukangu”, como acrescenta Kapenda Salongue.

Publicado pelo jornal de Angola de 21.04.2019

 

domingo, 20 de março de 2016

JUST LOOKING ON JOHANESBURG


Mesmo com o termómetro a apontar nove graus centígrados, de um inverno Julinho da África do Sul, a moça vinha xuxuada em direcção ao Nelson Mandela Square, local onde convergem ruas, crenças e nacionalidades para as compras do dia-a-dia para os joaneburguenses e a indispensãvel mwamba e sovenirs para os visitantes. Tita (nome que decidi atribuir-lhe) ia de mãos dadas com o seu homem de companhia, marchando pelo passeio rigorosamente asseado da rua que se estende dde longe ao centro de convergência política e social. Bob, o seu companheiro, treinava os dentes com umas baumilhas compçradas metros atrás, enquanto Tita, vaidosamente vestida e com os postiços a encobrirem-lhe os ombros, terminava a degustação de uma banana comprada na feira de artesanato.
O collant xuxuado que lhe visitava o diafragma e a marcar os desenhos apelativos e as letras esculpidas no seu corpo juvenil, a lembrarem uma marca automóvel alemã, fazia adivinhar uma jovem com o miolo ainda em estruturação ou uma alma perdida.
- Deve ser uma angolana ou uma southafrican alienada. - Disse para os meus botões. E não tardou para que ela confirmasse o meu pensamento pessimista, sem mesmo que fosse necessário abrir a boca.

Como remoinho de vento que se organiza para, em força, atacar e derrubar tudo que lhe faça barreira, a jovem começou a rodopiar sobre si mesma. Desfez-se do damo com quem caminhava de dedos quase cafricados e abrandou a marcha. Olhou umas tantas vezes à direita  e outras tantas à esquerda. Virou a locomotiva para atrás e explorou tudo o que se aporesentava a frente dela. No meu imaginário rural, Tita fez-me lembrar uma galinha pronta a ovar mas que se certifica do lugar em que alojará a génese da nova vida.
- Será que a gostosa quer urinar ou quê? – Voltaram a cochicharam os meus atentos botões.

A rua estava copiosamente limpa e os jardins estavam molhados de rega. Na mão da "princesa" estavam em sobra as cascas da "benguela" e não se via nos metros dianteiros um contentor ou uma papeleira que a ajudassem a descarta-se do testemunho. Exactamente no momento em que cruzávamos, ouvi pronunciar um "excuse me" dirigido ao acompanhante que se manteve hirto, como quem esperava por uma desgraça.
- A mboa vai mesmo urinar na rua ou fazer coisa pior? - Voltou a questionar o meu íntimo inquisidor, enquanto Bob, o acompanhante dela, magicava, com certeza, outras ideias.
Passado a pente fino, Bob mais se parecia um recrutador de pérolas ou daqueles que só acompanham a dama para entregar a prenda a "quem de poder".
Eu seguia em sentido inverso ao deles, quase pregado à parede longitudinal. A "gostosa", como se achava que era, abeirou-se de mim, metendo o meu já hipertenso coração em cavalgadas.
- Será prenúncio de assalto ou pretensa procura de assunto que em tribunal possa resultar em acusação de assédio? Dizem que por essas terras não  pode olhar duas vezes à mulher alheia, mesmo que esteja em exposição. – Cogitei.

De seguida, cerrei todos os dedos e desviei o olhar, seguindo-a apenas de esguelha. E foi que a barona, fingindo um gesto de saudação a mim, jogou a casca da banana que tinha numa das mãos ao canteiro protegido por duas paredes habitacionais.
Movido pelo espirito organizador e higienicista que de mim se acaparou, ainda soltei um "please, don't do it", mas ela, tal rio que se afoga no mar, coberto de razão, não foi na minha conversa. Não recuou da acção e prosseguiu o seu caminho, preenchendo a mão vazia do seu amo que estava quieto e inseguro do que viria a praticar a sua dama.

Suspirei de alívio, pois não era assalto nem algo que me envolveria em sarilhos gratuitos, mas não tardou para que uma outra interogação, seguida de exclamação, me invadisse o pensamento.
- Ou Tita é mwangolê ou nem tudo são rosas na nação do arco-iris! Aliás, vi miúdas do ANC que nasceram em Angola e ela podia ter uns vinte e coinco anitos... - Ajuntei. Também me lembrei que mesmo na possibilidade do ensino e da  educação familiar produzirem só rosas ou muitas rosas por essas terras, a flor e os espinhos fazem a dupla numa roseira e que quem recebe a flor também se apodera de uma porção de esporões.
Segui o meu caminho até novamente à exposição de arte e artesanato, organizada propositadamente para atender com gifts das terras de Mandela os diplomatas e outros conferencistas internacionais que fizeram do Sundton Conference Center um areópago dos países membros da União Africana, com destaque aos então Países da Linha da Frente que procuravam posições concertadas no âmbito regional.

Na feira, denunciado pelo meu curto shakespear e vestimentas sociais, fui quase forçado a declarar a todos que me queriam vender qualquer coisa um "im just looking". Até a tradução de friend para amigo os mais "vivos" buscaram do google translator para me cativar e trocar os meus parcos rands por umas lembranças duradouras. Não é que alguém conseguiu mesmo? Uma pipa para tabaco que nunca fumo e duas porta-jóias para a "comandante geral" do kubico e sua primogénita fizeram parte do meu espólio de recordações da rainbow nation.
Já no hotel, seria a Sra. da fiscalização dos quartos a me atazanar o juízo com a sua dicção estranha ao meu pobre inglês.

- Can you write what you are saing? - Defendi-me, meio aborrecido, pois me estava a prejudicar a crónica do dia.

E ela, diligentemente, e com letra de uma doutora  emprestada a serviços menores, redigiu: do you need anything in the room?

- Only water. – Respondi. Apenas água que, apesar da sede que me apoquentava a garganta em pleno dia de friorento, nunca me foi servida. Terá sido um código? Se foi, confesso que apanhei do ar. Há já muito tempo que não navego nessas ondas de "mantas que respiram quentura com ajuda de George Washigton debaixo do travesseiro".

Recolhi-me e fiz do PersonalComputer o melhor tradutor das minhas experiências e vivências.
- Can I help you?

- Im just looking!