quinta-feira, 1 de outubro de 2015

A CAPITAL ESCOLHIDA POR NGANA NGUXI

Nunca entendi por que razão Agostinho Neto escolhera Lucapa como então "futura" capital da novel província criada em 1978 e por que a nova centralidade foi erguida no Dundo, mais distante de Luanda, do que Lucapa. Nem cheguei a descobri-lo nessa primeira entrada na "penúltima cidade do nordeste". Apenas pude contemplar a exuberância da planura do espaço que "mano António" quis como capital da "Lunda wa kusangu". Um espaço que se estende de norte a sul e do leste a oeste afundando-se em ribeiros que tanto supririam a cidade de água potável, como conduziriam as descargas pluviais aos afluentes do Nzadi até chegarem ao grande "kalunga lwiji".

- Bom dia, mano. A viagem está a correr bem? - Interpelou o polícia de viação e trânsito ladeado por colegas da ordem pública e dos Serviços de Migração e Estrangeiros.

- Bom dia chefia. A viagem corre sem sobressaltos e o asfalto, tirando o troço do Luó, corresponde aos anseios do automobilista.  -Respondi-lhe com atenção, mas ele se dirige ao lado oposto e coloca as mesmas perguntas aos meus dois passageiros.

- O mano não abre a boca? Questionou o policia ao meu acompanhante que ocupava o assento traseiro.

Lembrei-me que era um teste para se certificar se éramos nacionais ou não, sem que fosse necessária a apresentação dos nossos bilhetes de identidade. Provoquei uns gracejos e os meus dois passageiros abriram as bocas, ensaiando um português sem sotaque afrancesado.

- Podem seguir. Boa viagem. -  Ordenou o polícia, três riscos em cada ombro, ao que obedeci.

Minutos depois atingiamos Lucapa. A presença de motorizadas em serviço de táxi e um prédio alto, ainda em construção, indicia, a existência de uma cidade lá adiante. Um cidadão, nos seus 30 anos faz da estrada seu pousio e enfrenta os mototaxiastas e automobilistas. Afouxei a marcha. Buzinei. Mas ele sempre no mesmo lugar. Nem pra frente nem pra trás. Contornei-o e imobilizei a viatura mais adiante para perguntar aos que faziam o seu “kadienge” junto à estrada se se tratava de um demente ou de alguém doente a precisar de ajuda.

- Mano, é das pessoas que ficam a procura de azar na estrada para dificultar a vida dos outros.- Respondeu-me a Dona Upite. Assim, mesmo, se o mano lhe batesse só um kabucado, as famílias dele viriam para receber-lhe o carro ou pedir multa para lhe tratar. O mano fez mbora bem de lhe esquivar. – Acrescentou a Senhora que, ao que soube, não é daquelas paragens, estando aí apenas em negócios e tendo, ela mesmo, enfrentado semelhantes provocações que resultaram em prejuízos para a sua conta.

Segui a marcha, sem saber onde começava e terminava a urbe. Era andar apenas para explorar o que podia ou não encontrar mais adiante.

Antes de atingir a urbe erguida pela finada Diamang, três sucatas de pássaros aéreos atraem a nossa atenção.

- É o aeroporto. Viste a aerogare? Se parece a uma garagem de fazenda abandonada embora! – Exclamou o terceiro passageiro que não quis ser citado na crónica. Na verdade, o que diferia uma fazenda abandonada, daquelas que abundavam o nosso país no tempo da guerra, era a avioneta que emprestava a sua brancura à pista de terra batida. Mais adiante, em direcção à urbe, um emaranhado de cabos entrelaçados perigosamente entre postes metálicos desviam o olhar do visitante.

- Como estás, jovem? Perguntou Nelembe, o meu acompanhante, a um cambiador de moeda e, ao que nos apercebemos, também comprador de brilhantes.

- Boa tarde môs kotas. É para cambiar ou brilhar? - Respondeu solícito.

- É apenas para saber se esses cabos são de telefones ou energia. Já houve um debate entre nós, no carro: um acha que, pela quantidade e entrelaçamento, só pode ser de telefones fixos que transportam uma quantidade ínfima de energia eléctrica. O meu colega, que está no banco da trás, entende que são mesmo de energia eléctrica. Podes nos dizer o que é essa “engenharia”? – Explicou-se o Engº Nelembe, procurando obter a confirmação.

- É energia da dona Teresa. Esses fios, o interlocutor apontava para o lado direito da via que tinha postes e linhas de transporte mais organizados, são da Ene mas ainda não dão luz. - Explicou o jovem. A dona Teresa, segundo ainda o interlocutor "é uma mboa visionaria. Uma empresária que sabendo das dificuldades energéticas da cidade montou um gerador potente e vende energia aos moradores. Para evitar que haja ligações "gatosas" todos os cabos partem directamente da central ao domicílio.

Engatei a mudança e prosseguimos. Apenas em viagem exploratória. Um andar sem rumo pois não conhecíamos a urbe. Queríamos apenas saber o que estava adiante. O "largo dos comícios" que dá vida a Avenida 11 de Novembro foi outro ponto de paragem para as fotos de lembrança. As cores da tribuna e do monumento, no meio do jardim, remetem-nos à bandeira nacional. As casas da vila, que devia já ter sido elevada à categoria de cidade, se caputo atrasasse o regresso à metrópole, têm jardins podados e muros baixos, reclamando apenas algum cimento para a correcção das fissuras e corrosões e alguma tinta para restituir a beleza roubada pelo tempo e pelos farfalhos do vento sem barreira às paredes septuagenárias.

As ruas da vila original são bem arrumadas e  já contam com "semaforização", relegando para planos secundários algumas cidades, capitais de províncias, que ainda sonham com um ordenamento virtual do tráfego automóvel. Quem também não se esqueceu de aplicar suas "impressões digitais" à vila de Lucapa é o grupo que constrói os hotéis cor-de-rosa. O prédio mais alto da região e que anuncia a existência de uma cidade naquela paisagem verdejante tem a cor de camarão.

De novo no controlo da polícia, as mesmas perguntas:

- Aonde vão agora?

- Vou levar os camaradas ao Dundo. São novos na região. – Respondi, desta vez acompanhado pelos meus passageiros.

- Gostaram de Lucapa? – Voltou a inquirir o agente.

Sim. Eu, particularmente, gostei. Mas voltarei, um dia, a Lucapa, com mais vagar, para explorar melhor a sede municipal que tem o maior número de agências bancárias e cambiadores de dólares e brilhantes. Procurarei com outros dados para encontrar os caminhos que me mostrem por que o primeiro Presidente de Angola a tinha eleito como o ponto de partida daquilo que viria a ser a capital da Lunda Norte. – Expliquei ao agente que começava a demonstrar maior empatia e engodo para a conversa.

- Sim, meu camarada, vejo que é um camarada. É uma pena que o sonho não tenha passado do sono! – Desabafou o polícia em tom malicioso.

Já a sair, lancei uma pergunta que já foi “palavra de ordem” nos tempos mais apertados da busca desenfreada por kamanga e por dinheiro “fácil” acompanhado de muitas atrocidades:

- Ainda se “amarra" com ou sem razão?!

- Isso já faz parte do passado, meu camarada!

Nota: texto publicado pelo Semanário Angolense na sua edição de 05 de Junho de 2015.

segunda-feira, 21 de setembro de 2015

DOEI MEU CÉREBRO À ARTE

ASSIM PENSEI
"Tudo o que se pareça à arte, mas domesticado pela ideologia
reinante ou emergente, não é arte.
Mesmo sabendo que a rua e a indigência são os lugares mais à
vista de muitos artistas, decidi doar o meu cérebro ao serviço da arte literária".
(Soberano Canhanga)

sexta-feira, 11 de setembro de 2015

À CONVERSA COM A MARIA


Decididamente. Lugar de idoso não é no Beiral. No campo fica melhor. Numa fazenda, quinta ou lavra, cuidando de plantas, gansos, patos, galinhas, etc.; transformando alevinos em gostosos "ikusu" ou dando a aprazível companhia de bovídeos, caprinos e ovinos aos pastos que abundam nas anharas planálticas; fazendo os ngulu grunhir e os cavalos relincharem ao toque do pastor-ganadeiro.

Provei e comprovei. Cada volta que se dá no canteiro de ananaseiros, laranjeiras, pereiras ou laranjeiras; cada cacho de banana que carrega, cada abacate que se colhe é mais um mês de vida para um idoso.

Longe dessa vitalidade estão aqueles que, depois de aposentados do serviço decidiram-se em "matar kasumuna" na cidade, deixando os pés ociosos acumularem reumatismos e outras doenças derivadas do nada fazer.

- Acordar, comer e dormir é doença. Confidenciou-me um idoso na casa dos oitenta, mas respirando ainda vida abundante que retira na kizaca, galinha da capoeira e fruta que transita da árvore á boca.

Decididamente, um jovem, ainda que urbano, devia pensar em plantar uma árvore para que de sua sombra desfrute a vida senil.

Provei e comprovei isso em Yeyele, um campo agrícola de Sabino Salongue e Argentina Ernesto, casados há 47 anos, ambos enfermeiros aposentados, vivendo no Cuito, mas dando emprego a mais de dez famílias em Yeyele onde fazem os seus vitais "matutinos" agrícolas.

Simpáticos, alegres, sempre bem-educados, os trabalhadores da fazenda recebem com canções e danças os seus visitantes.

- Vakombe, kalé, vakale veya! (os visitantes chegaram!)

- Coros afinados, harmoniosos, desafiando muitos que se fazem ao microfone para tostões, cantam incansavelmente, fazendo o visitante sentir-se um Soma.

Antes da partida, o visitante que ganhou um boi, na hora transformado em vaca, anuncia, não em umbundu que todos cantam, mas em ucokwe:

- Nguna sakwila cinji. Ciseke cinji ngunevu (Estou muito agradecido. É imensa a alegria que sinto). - Soltam-se palmas e assobios. 

Uma senhora que fala ngangela, língua aparentada ao ucokwe traduz para umbundo. Soltam-se novas e estridentes rajadas de palmas e assobios. Ouvem-se novos cânticos, profanos, políticos e religiosos. Faz-se festa.

O visitante vê-se banhado em lágrimas de contente. Recepção única, inédita. Idêntica nunca teve. Emocionado, alegre, anuncia à jovem que trabalha em casa dos sogros-patrões:

- Tens aqui dinheiro para ti, para as tuas gasosas, e outros angolares para a família da fazenda. No fim da jornada, faz a distribuição: Gasosa para aqueles que álcool só usam na ferida, vinho e aguardente para quem tem as entranhas ensanguentadas.

A ngoma junta-se à roda dos dançantes.

- Etali ombebwa yeya. Kapuli vali uyaki (hoje vivemos tempos de paz, não há mais guerra que nos impeça de festejar). – Atirou o gerente que também rege a festa.

Tocou o apito. É hora de partida. O relógio aponta seis e meia da tarde. A circunferência celeste apresenta-se azulada e com a lua à mostra. O terreiro sempre povoado. Nunca esteve vazio desde que Maria, que ia a frente de branquinha, cruzou aquele espaço. Assim foi durante a tarde toda, desde o meio-dia. Cantavam e dançavam com pequenos intervalos para amamentar os filhos ou colher alguma erva para a janta. A carne já estava garantida. Era bovina e fresquinha. Os homens suavam com as mãos ensaguentadas e estômagos cheios de esperança, adivinhando-se boas e longas garfadas. As línguas ensaiavam as pupilas gustativas para o repasto da noite. Até a cadela da fazenda parecia felicíssima.

Albertina, a moça que vive na cidade com os patrões, distribuiu walende. Conhece os acampados nominalmente. Uns já enfrascados e outros ainda com o "produto" na mão, de novo toca a ngoma e soltam-se as vozes, cada vez mais afinadas.

- Álcool é remédio contra o frio, isolamento e até sofrimento (?) – Perguntei a mim mesmo, sem que alguém me fornecesse a fórmula. Mas eles não sofrem. Eles trabalham e ganham. E são felizes no seu mundo.

As carrinhas, Maria e Branquinha, prenhes de carne bovina, bananas, ananases, laranjas, milho e outras oferendas partem carregadas a gemer. Desta vez, Maria atrás e branquinha na dianteira.

- Xalipo ciwa. Cantou-se efusivamente em gesto de despedida. Fez-se carnaval.

 

Posto na cidade que Silva, o do Porto, fundou, acariciei a Maria, cansada e alegre.

Ela sempre linda, simpática e demasiadamente sedutora para a minha sede de aventuras. Cheia de força e vigor em demasia precisava de um macho como eu que a levasse ao orgasmo na quinta velocidade. Fazendo amor na estrada e na mata.
Girei sua cintura, apertando-lhe os seios-buzina, falando-lhe ao ouvido até fechar os olhos ou abri-los de contente.

- Vamos ao Kunje, ver a estação do caminho-de-ferro de Benguela, Maria. - Pedi.

- Chega. Estou cansada. Aceitei o convite de boa vontade para te ajudar e te acompanhar aonde quiseres ir, mas chega. Não quero que me voltes a trepar. - Reclamou contorcendo-se de dores lombares.
- Mas, Maria, o acordo foi me levares. Pretendo chegar ao Kunje e ver a estação do CFB e a estrada do Cunhinga. - Tentei buscar a sua compreensão.
Maria, a vermelha, meneou a cabeça e lá se pós aos muxoxos, mas andando devagar e cada vez com mais vagar.
- Essa vida assim não dá. Uma gaja te leva a bons caminhos. É meu dever. Agora me metes nessas crateras e lamaçal? Vou levar-te, mas ficas já avisado: quando terminar o percurso quero água, pano, escova e sabão.
- Bravo, bravo. Granda Maria! Fiz-lhe umas carícias no círculo condutor, engatei a primeira, equilibrei o acelerador e a embraiagem e lá foi ela. Alegre, novamente, apesar dos solavancos. Chegamos à comuna do Cunje, onde os comboios do caminho-de-ferro de Benguela tangenciam o Cuito, a caminho do Luau.
Com carinho, pedi-lhe ainda que roubasse uns quilómetros à picada do Cunhinga, mas lá estavam os assassinos a mandar-nos saltitar, ao que preferi desistir, antes que a Maria voltasse a reclamar. Invertemos a marcha, contornando cada buraco ou passando por eles, secos ou enlameados, até à cidade fundada por Silva, o do Porto.
- Queres saber duma coisa, Soberano? - Interrogou ela para continuar: gostei da estação ferroviária mas aquelas casas que se situam na margem esquerda já deviam ter o rosto lavado. Será que os maquinistas e pessoal de apoio não precisam delas?

Apenas aprovei com o balancear da cabeça mas ela prosseguiu irónica.
- Aquelas luzes altas, que não sei se acendem ou não, também estão muito giras, mas o estado da rodovia é que não se recomenda mesmo a ninguém. Por acaso, amanhã me podes levar ao administra a dor para saber por que ele gosta tanto de ver os carros partidos?
Engoli mais uma das tiradas de Maria, a minha carrinha, sem que houvesse uma resposta pronta na ponta da língua.

Meia-noite menos um quarto, fomos descansar, porque no dia seguinte a Maria teria de me levar num percurso de 700 quilómetros, entre asfalto e buracos.


Nota: publicado pelo Semanário Angolense a 04 de Abril de 2015.

terça-feira, 1 de setembro de 2015

JULGAMENTO DE MAKOJI


- Mana me dá só água, por favor. - O moço suava por todos os poros.
- Estás a “coloriar” assim porquê? Não tem água.
- Mana, me dá só água, você “és” minha professora no Mwa Cisenge. – Replicou o jovem pedinte, tentando buscar compaixão.
- Mas estás assim com tantos galos (hematomas) na cabeça porquê? - Voltou a questionar a dona de casa, por sinal, ex-professora do jovem.
- Estamos aqui, no soba, num “makoji” que estão a negar “na” família do indivíduo que lhe apanhamos. Já se experimentamos lá um bocado (lutamos um pouco).

A irmã da professora ainda tentou acudir o diálogo entre o homem acossado pelo fogo da peleja e a ex-professora que não queria ver sua casa inundada de gente atrás do líquido que mata a sede.

- Mana, “lhe dá” só uma caneca. Isso é pecado. – Acudiu, dirigindo-se para a cozinha.
Assisti a luta que decorreu a metros da casa onde me encontrava a petiscar funje com kizaka e kabwenha que para os tucokwe é xima nyi ixi, nyi matamba.

As meninas presentes na festa de aniversário duma lactente tanto dançavam ao “do cotovelo” como se esmeravam na cyanda que é ritmo e dança local, aprimorando os toques e contornos eróticos daquela balada. As que melhor executavam a dança eram agraciadas com elogios da assistência ou mesmo alguma pecúnia. A maralha toda vibrava ao som da música “Moyo” de Xavitu mwana Kakolu.
Perante o sofrimento e as súplicas do jovem, ferido por fora e queimado por dentro, que precisava de enviar algumas gotas de água boca adentro, decidi dar-lhe a minha garrafa que fica de reserva que estava no carro. A água devia ter a temperatura ambiental, a rondar os 33 graus célsius, mas ele tragou-a num piscar de olho.

- Obrigado, meu mano, ngunasakwila cinji. - Replicou na língua que me pareceu dominar melhor. Articulava os fonemas e as construções frásicas como um bagre nadando em águas tropicais turbinadas pela chuva.
O bairro é Terra Nova. O município Saurimo. A numeração indicava: AMS-TN-ZA-14… O falar alto de gente exaltada despertava quem por lá passasse. Eram vozes e músculos a gritarem altos. Enquanto na rua a razão da força imperava entre os partidários do acusado de colheita em ceara alheia e dos acusadores, ao que se dizia, sem provas materiais, lá dentro, na cyota do soba, era a força da razão, fundamentada com adágios seculares da terra, quem mais vociferava.

Apesar de bairro periférico da capital lunda-sulina, muitos habitantes preferem ainda recorrer à autoridade tradicional e ao direito consuetudinário para dirimir as suas querelas. A polícia e os órgãos vocacionados à administração da justiça andam a leste do que se passa no interior do(s) bairro(s), ou melhor, ninguém se lembra deles quando o assunto não atinge proporções irresolúveis no foro tradicional.
Primeiro os músculos, depois o soba e a fixação de indemnizações aos ofendidos. É assim no interior dos bairros e das aldeias nordestinas. Episódios sobre makoji (adultério), ofensas e danos morais e ou materiais, acusações de práticas feiticistas, etc., fazem parte do menu das queixas que chegam ao soba.

Às vezes, os músculos tentam resolver (sem o sucesso esperado) parte do problema ou medir a pulsação familiar. “Assim já, se você lhe dá uma boa surra, pode dizer no soba para ficar já assim”, contou-me o amigo que suplicava por uma gota de água que nem “Lázaro e o Rico”. É que quem não frequenta aqueles lugares, acha que todos têm razão. Vociferam, ensaiam poses para peleja. Mangas normalmente arregaçadas e calças com os joelhos enlameados por causa das “basulas”.
Lá dentro, porém, há ordem. A autoridade e o juízo do soba são incontestáveis. Todos concordam com a eficácia da justiça e justeza da lei e observam silêncio, entrecortado apenas pelo desfilar de adágios não muito acessíveis ao entendimento dum jornalista "mukwakwiza". O soba dita a sentença e todos batem palmas, os da parte do queixoso e os da parte do queixado. Os que estão fora deixam de mandar vozes ao vento e ficam expectantes. Espreitam pela porta de gradeamento mas nada vislumbram. Não tarda, queixado e queixoso saem abraçados, como se de amigos de longa data se tratassem. O soba recomendou paz e cumprimento da sentença para que o mal não se reproduza entre a família.
- Ides em paz e não voltem a lutar! – Terá ordenado a autoridade tradicional.

Quanto a mim, que precisava de matar toda minha a curiosidade e ouvir as partes, recebi apenas um consolo do meu primeiro interlocutor:
- Mano, obrigado pela água, mas o soba disse que você não pode entrar para falar com ele. Tinha que ser família das pessoas que se deram “mulambeno”!

O queixado promete cumprir a indemnização para o makoji que entretanto jura não ter cometido. Mas cumpre. Makoji não é só quando se chaga a vias de facto. Ter a intenção de passar o outro pelas costelas dá, em termos de interpretação do direito consuetudinário, no mesmo que adultério.

- É “catoqueiro”? Um milhão de kwanzas! - Dizem que para esses o valor baixou, dado que trabalhar numa empresa de “kamanga” já não rende tanto quando rendia há dez anos.
- É bancário? Um milhão e meio. - Ninguém explica porquê, mas cogita-se que seja pela facilidade com que alguns se fazem aos empréstimos ou juntam os cêntimos alheios.

Mas o “lavrador” era camponês e ficou-se pelo cabrito, galinhas e kibutos de bombô. A garina permaneceu com o esposo que viu sua “honra lavada”?!


Nota: Texto publicado no Semanário Angolense, edição de 07.03.2015.

sexta-feira, 21 de agosto de 2015

HOMENAGEM ÀS MULEMBAS


Nzuzi nasceu em Alfândega, um pequeno vilarejo do norte de Angola. Chegado a Luanda, em meados dos anos noventa do século finado, ainda criança, viu o mundo da escola a fugir-se dele por não lhe terem dado a oportunidade de deslizar persistentemente o lápis sobre o papel até dar forma às figuras geométricas, às letras e aos números. Nzuzi passa hoje grande parte do seu tempo refugiado em sombras de mulembeiras ou mulembas, numa das ruas da zona urbana de Luanda, onde faz da lavagem de carros o seu ganha-pão.

Xavitu, outros dos jovens que frequentam as sombras das mulembas de Luanda, nasceu em Namacunde, no Cunene. Xavitu abandonou a sua terra natal forçado pela guerra. Os ovambu, embora tenham a vocação natural de pastores e gostem de fazer transumância do seu gado, não são muito dados a emigrar para terras distantes e desconhecidas, ainda mais, sem o gado, uma de suas principais ocupaçoes. Mas Xavitu, aconselhado por um parente do exército que pesquisara o "salve-se quem puder" na grande cidade, acabou aceitando a ideia de refugir-se em Luanda onde se dizia ser tudo possível. Meteu-se em cima dum camião de carga procedente da Damaralândia e aportou na cidade dos sonhos com dezasseis anos apenas. Dias depois, escolheu a rua que liga a antiga escola de oficiais do Gika à Maianga, abundante em mulembas, onde passou a viver das propinas que cobra aos automobilistas afoitos em encontrar um lugar para estacionar suas viaturas. Tal como Nzuzi, Xavitu faz-se também passar por dono de um parque público, lava carros, cobra dinheiro pelo uso do pedaço de estrada morta, rouba aos incautos, danifica viaturas de quem não pague o que não deve e faz das mulembas da Martal o seu refugio sempre que o grito do sol fale mais do que a sua resistência. As mulembas passaram também a seu restaurante, seu contentor de lixo e, pior ainda, também lugar para urinar e até mesmo defecar.

- Kota, aqui é só mesmo se desenrascar. Quando cheguei, era ainda um "camenino" e comecei mesmo a viver no elevador estragado dum prédio e a lavar os carros e carregar as coisas dos chefes. Quando tenho vontade de tirar água do joelho ou comida da barriga vou mesmo debaixo das mulembeiras. É mesmo já nosso hábito. Não temos outros lugares. Numas mulembas ficamos só para apanhar a sombra, noutras é que fazemos já o que o kota está a ver. - Narrou Xavitu, meio envergonhado.

Lembinha é zungueira e percorre a cidade de lés-a-lés. Na sua bacia, já quase sem cor, transporta "magoga" (sandes de frango frito), "paracuca" (jinguba ou amendoim açucarado), kisângwa (refrigerante caseiro) e outros "mata-fome" bastante solicitados por funcionários públicos e outros frequentadores da cidade, em negócios de rua ou trabalho formal. Apesar de a condição feminina não ajudar muito para a frequência das mulembas, vezes tantas Lembinha teve de imitar os colegas masculinos das ruas de Luanda para aliviar-se debaixo de uma árvore.

- A pessoa se amarra um pano e faz só já debaixo da árvore. Não temos sítios para fazer as "centinas" e quando você bate porta do quintal para pedir licença na casa de banho, ninguém te aceita. - Argumentou com uma ponta de vergonha e tristeza.

Lembinha que é de Tunda Sanji, Ngulungu Alto, tem a consciência do mal que provoca às mulembas e à sanidade urbana, pois reconhece que "não devia ser assim, porque a cidade cheira mal e muitas árvore acabam por secar", mas também se justifica sarcástica que "quando, na barriga ou na bexiga, a revolução chega não há como travá-la", informa a vendedeira.

Na Petrangol, as mulembas que ladeavam a estrada que nos leva a Cacuaco, e Caxito e que desenhavam um "túnel verde" não resistiram à força do machado construtor, que propicionou o alargamento da rodovia, mas ainda resta a Mulemba Waxa Ngola. Apesar de local histórico, de veneração e culto ao soberano Ngola Kilwanji Kya Samba a quem se deve o nome do nosso país, a árvore vai recebendo urina e vários detritos produzidos pelo homem.

 Nga Ximinha, uma senhora que vende bombó assado com jinguba torrada, refugia-se sobre a sombra da árvore secular, não se coibindo de oferecer-lhe, vezes tantas, alguns litros de urina e adubá-la com os restos do seu comércio de rua. Ximinha é também testemunha de outras cenas que se desenvolvem debaixo da mulemba mais famosa da Petrangol.

- Aqui quando é noite, os moços vêm cá namorar e se encostam mesmo na árvore. Já encontramos aqui latex usado na pouca vergonha desses meninos do bairro. Outros, quando o xixi lhes aperta, não se escondem mais. Até homens de fato e gravata é mesmo aqui que descarregam o seu mijo de kimbombo e kapuka que cheira como cheira. - Desabafa Ximinha, entre um misto de culpa pelo que também faz contra a árvore e algum desgosto pela imundície à volta.

Quando se lhe pergunta por que faz ela parte dos que jogam lixo na mulemba, Ximinha coça a cabeça e balbucia:

- É mesmo falta de educação e respeito pelas coisas sagradas. Uma árvore dessas devia ser melhor tratada. - Reconhece a senhora, nos seus aparentes quarenta e picos anos de idade.

Assim segue a vida das mulembas e daqueles que na cidade ganham a vida debaixo das árvores, não sendo poupada nenhuma espécie que se mostre à rua: acácias, coqueiros, tamarineiros, espinheiras, macieiras da India, imbondeiros, etc.

Resilientes, mesmo maltratadas, apresentando-se feridas com os troncos rasgados ou amputados, as nossas mulembas estão sempre dispostas a transformar hidrogênio em oxigênio puro e incontornável à respiração humana. Mesmo sendo insistentemente regadas a mijo humano e adubadas com dejectos, lá estão elas, enfeitando calçadas, ladeando as ruas e avenidas da nossa capital, lançando ainda o seu perfume que só a barbaridade de quem se esperava pensante elimina com o fedor de suas descargas biológicas.

As nossas mulembas de Luanda são símbolos de resistência contra o mal, sem falecer. Continuam hirtas, desempenhando seu papel social e vital.

Plantemos mulembas e demais árvores nas nossas ruas, largos e quintais, a fim de ganharmos oxigénio reciclado e uma vida mais verde e alegre. Reguemos as árvores apenas com água natural e adubemo-las com fertilizantes naturais e químicos recomendados por especialistas. Respeitemos os locais de culto secular e de memória colectiva, como a Mulemba Waxa Ngola e outros locais como salvaguarda da nossa herança histórica e cultural. E gritemos todos: vivam as nossas mulembas!

Texto publicado a 15 de Agosto de 2015 pelo Semanário Angolense.

terça-feira, 11 de agosto de 2015

FIQUEI-ME 'MBORA PELO LONGA


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Uma vez em passeio ao Cuando Cubango (enquanto não surge o novo registo, grafo como está oficializado), tomei o desafio de ir ao Cuito Cuanavale, local onde o meu primo, Sabalo Kambota Canhanga, ajudou, entre 1986-7 a travar os invasores sul-africanos. A estrada está convidativa para quem gosta de fazer a combinação: acelerador, travão e muita precaução.

- Minha senhora, pode dizer-me quantos quilómetros tenho de percorrer até chegar ao Cuito Cuanavale? – Indaguei à agende policial que se encontrava no rotunda do aeroporto de Menongue.

Ferrada em altura mas beneficiada em edução, Ana respondeu-me sorridente. Aliás, começou por questionar se eu “era visitante”.

- São mais de duzentos quilómetros, mas vai passar antes pelo Longa, onde há fazenda de arroz.- Explicou Ana (não retive o sobrenome).

Vai com prudência, por causa dos animais, e se vai fazer turismo, divirta-se à vontade que o país já está seguro. – Recomendou-me a agente reguladora de trânsito. Ela preparando-se para interpelar uma viatura e eu inspecionando a pressão dos pneumáticos.

Marcha adentro, cheguei à comuna do Longa que fica à meia distância entre Menongue e Cuito Cuanavale. É uma pequena vila cortada pela estrada nacional 280.

- Aqui travaram-se encarniçados combates pela defesa da pátria ameaçada. Aqui tombaram camaradas de várias procedências do nosso país. – Contou João Mbambi, professor primário da circunscrição. Mas longa não é apenas baluarte da luta para a preservação da independência do país. Contam-se também, na sub-zona da Terceira Região Político-Militar do Glorioso, que engloba a comuna do Longa, estórias sobre resistência contra a colonização, estórias sobre a resistência heroica contra os invasores sul-africanos quando os homens de Roelof Pik e Pieter Botha pretendiam fazer em Angola um "passeio turístico-militar” em socorro de amigos angolanos que a história se encarregou de catalogar. Hoje a luta que se trava no Longa e zona contígua é reerguer o que se destruiu durantes as várias guerras (contra ocupação colonial, contra a invasão sul-africana, contra a insurreição interna) e construir coisas novas: novas escolas, novas habitações, novos centros e postos médicos. É produzir arroz, milho, leguminosas e tubérculos e aumentar o nível académico-cultural dos seus habitantes.

Longa, com os seus perto de cinco mil almas é uma comuna que perdoa o passado lúgubre mas que jamais se esquecerá do passado para que não se repitam as atrocidades que apagaram vidas e transformaram em escombros casas, lojas, hospitais e outros haveres.

A carcaça de um helicóptero militar danificado na cabeceira da sua pequena pista de terra batida e alguns edifícios coloniais convertidos em pedaços pela aviação e artilharia "inimiga" são registos históricos que devem passar para as próximas gerações, como forma de testemunho material.
Os meninos do Longa contam hoje a história sobre a sua região, lida nos poucos livros existentes, e jogam à bola num pedaço lateral do "campo de aviação". A língua que mais se fala é Ngangela, sendo a portuguesa a segunda língua, obrigatória apenas na escola que foi, felizmente, poupada e reconstruida.

"Outra maior, de 12 salas, construída de raiz, aguarda(va) pela inauguração, devendo elevar o nível de ensino e o número de alunos escolarizados", contou João Mbambi, professor que ganhou um "Relógio do velho Trinta" (romance do autor dessa prosa).


Os petizes, uns vestindo calções e camisolas amarelos e outros de tronco à mostra, imitavam, emotivos e sonhadores, os craques do Girabola. 
- Quero ser como Job ou Ary Papel. - Disse um deles, quando convidados para a foto-testemunho.

- O nosso campo é no lado de lá da estrada, onde os colonos jogavam. Contou Moisés, ganhando no fim um outro “Relógio do velho Trinta”.


O árbitro vestia uma jeans, uma tshirt e calçava chuteiras, ao passos que os pequenos "artistas da bola" poucos mostraram ter o privilégio de jogar com os pés calçados. Alegres, sem temor, nem represálias. Hora pós-escolar, 5h30 da tarde, girava alegremente a bola no Longa, enquanto me aprumava para a viagem de regresso a Menongue. Cerca de 90 km por cronometrar.
Moisés Sacinene, 14 anos, frequenta a sétima classe. Foi meu companheiro de conversas, e fotógrafo de ocasião. Não se fez ao campo por considerar aquele "um jogo de crianças". O seu campeonato é outro. Naquele pedaço de terreno plano roubado ao aeródromo militar, ou assiste apenas os putos a se “trumunarem” ou é convidado a ajuizar os jogos dos kandenges.


Quem vai de Menongue ao Cuito Cuanavale, tem, no lado direito do Longa: a pista, parte da aldeia e o quartel. Do outro lado da Estrada Nacional 280 ficam os edifícios administrativos e equipamentos sociais como o mercado, as escolas, o posto médico. Por mais incrível que pareça, Longa possui um campo relvado a reclamar por novas balizas. 
- Esse campo foi sempre assim desde que nasci". - Contou o professor Mbambi, quarenta anos, mais ou menos.

- O campo é mesmo do governo. É ele que manda cortar a relva quando fica muito alta. Elucidou.
No Longa, podem ainda ser vistos, no lado norte, a antiga quadra de jogos de salão e sobras da guerra como tanques blindados e "mwana kaxitos" (lança rokets) já recortados em pedaços e aguardando pelo transporte à siderurgia onde os "laças e canhões que serviram a guerra serão transformados em enxadas e arado" para lutar contra a fome e pobreza.
Mas abaixo, junto ao rio que dá o nome à comuna e à fazenda que é exemplo nacional em termos de produção de arroz, surge um vasto prado que se espalha em milhares de quilómetros quadrados de área, ladeando longitudinalmente as margens do Longa, cujas águas não só me convidaram para matar a sede mas também para lavar a Maria Canhanga que me transporta nessa odisseia.
- Tio, não toma banho ali. Visita tem de ser acompanhado. - Alertou-me um dos rapazes que desafiavam a lei de Pascal sobre a submersão, ao que obedeci. 
Na verdade, embora o Longa me tivesse convidado, a intenção era apenas de lavar o rosto e saciar do caudal corrente e límpido a sede que caminhava comigo desde Menongue.

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Enfim, conheci a comuna do Longa, fruto da paz que o povo tanto pedia. E não fui cumprir a "vida Kwemba" como o meu finado primo Sabalo, nem em serviço forçado numa cadeia pidesca do caputo ou “disesca” da ressaca revolucionária. Estive apenas a desfrutar Angola e os benefícios da força da razão que sempre lutou mais forte do que a razão da força que fez de todos nós meros objectos.

Que saibamos todos dizer "tri-ti-ti nunca mais" porque agora que a paz já chegou "fui embora no Longa". E a visita ao Cuito Cuanavale, perto de 100 km a leste de Longa, fica na agenda a cumprir nas próximas férias.

 



 



 NB. publicada pelo Semanário Angolense a 23 de Maio de 2015